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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Teu cheiro


 Teu cheiro me veste

como quem me encontra nua

e me cobre de pele e memória.


Não é só desejo.

É um sussurro que meu corpo entende

antes mesmo do toque.

É incêndio —

mas também abrigo.


Quando sinto teu cheiro,

não penso.

Meu peito apenas reconhece:

ali mora minha paz

E minha vertigem.


Não sei se quero te amar

ou me esconder em ti.

Talvez os dois.

Talvez seja isso:

ser tua sem te possuir,

sentir teu cheiro

e esquecer do mundo por um segundo.


Quero misturar meu ser no teu,

como se fossemos um —

pele com pele

de tudo o que tu és quando está perto,

quando me envolve sem saber que me cura.


Mesmo que eu não te possua inteiro,

mesmo que tu vá embora,

o que me enebria fica:

o teu rastro em mim,

a paz que só teu cheiro traz.


(Nivelly)

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

"Dê um tempo para quem não tem tempo para você"

 

Navegando, despretensiosamente, no mar de publicações de determinada rede social, me vi presa diante da seguinte postagem: "Dê um tempo para quem não tem tempo para você". Foi como um soco no estômago, um choque de realidade. Me levou a refletir sobre o nível de importância que dedico a algumas pessoas, sem ter a devida reciprocidade. 

Eu sei! Eu sei! A vida adulta não é simples. As responsabilidades se acumulam, o trabalho não espera, as preocupações chegam sem pedir licença - uma verdadeira loucura. Ainda assim, por mais cheia que a rotina seja, ninguém é tão ocupado a ponto de não conseguir separar alguns minutos para saber como o outro está, claro, se realmente se importa com este outro. Porque atenção não é questão de tempo, mas sim de PRIORIDADE.

Com o passar do tempo, algumas relações vão silenciosamente se desfazendo. Não por brigas ou grandes comoções, mas por ausências. Pelo "depois eu respondo", "qualquer dia a gente se vê", "tô na correria", até mesmo a falta de uma resposta, o famoso vácuo. E você, que sempre deu um jeito, começa a perceber que só um lado tem feito esforço. Isso dói! É duro admitir, mas algumas pessoas nos tratam como opção enquanto nós as tratamos como prioridade. 

Ser tratada como opção enquanto entrega ao outro o melhor de si é emocionalmente devastador. Isso corrói nossa autoestima aos poucos, faz a mente criar neuras e nos coloca em um ciclo de cobrança e insegurança, que destroem o psicológico. Quando a reciprocidade não vem, começamos a achar que o problema está em nós. Esse desequilíbrio desgasta, desmotiva, drena nossa energia, contaminando tudo o que construímos.

Quando nos doamos demais e recebemos de menos, o corpo sente, a mente cansa e o coração pesa dando espaço para a ansiedade. Essa tensão constante adoece por dentro. Aos poucos, vamos nos afastando de quem mais deveríamos proteger: nós mesmas. Deixamos de lado nossos limites, desejos e saúde emocional para tentar manter relações que não se sustentam. 

Abrir mão de pessoas, relações e vínculos não é algo fácil - dói, rasga o peito, deixa um vazio que quase sempre assusta. A memória puxa lembranças felizes, o coração resiste, e a gente insiste em permanecer onde já não há espaço. Mas, por mais difícil que seja, esse afastamento pode ser exatamente o primeiro passo para romper ciclos que ferem, nos permitindo alçar voo e respirar novamente.

"Dar um tempo" não significa desistir de alguém, mas ressignificar prioridades. Um gesto de amor próprio, que permite o reencontro com aquilo que realmente importa: Você! Quando paramos de gastar energias com quem não retribui, abrimos espaço para cuidar de nós mesmas com mais consciência e carinho. É um reajuste de foco. E tá tudo bem! Ao redefinir prioridades, devolvemos a nós o lugar que sempre deveria ter sido nosso e assim começamos a viver com mais leveza - e com mais verdade.

"Dar um tempo" é um ato de coragem. É dizer ao universo que você merece ganhar aquilo que também oferece. Não é um castigo. Não é drama. Não é vingança. É equilíbrio. E quando você assume isso, começa a atrair conexões verdadeiras, que somam, acolhem e retribuem. Relações que valorizam sua presença, reconhecem seu esforço e fazem questão de ficar.

Ninguém floresce em jardim que não é regado. E você, isso mesmo... você é jardim demais para perder tempo com quem não sabe cuidar. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Vamos falar sobre "idealização da mulher 'feminina'"?

Feminino, segundo o dicionário da Língua Portuguesa, é um adjetivo, "que se refere a mulher ou a ela é particular". Vem do latim femininus, derivado de femina, ou seja, mulher. Ambas as palavras derivam da mesma raiz, porém, "feminina" carrega um valor mais pessoal, diria até simbólico, pois implica em algo que encarna ou expressa o feminino. O uso dessa palavra, nos dias de hoje, possui caráter histórico, cultural e social, se tornando motivo para reflexões e debates dentro e fora da internet. 
Por muito tempo, o termo "ser feminina" foi usado quase como uma norma de comportamento e conduta,  se adequar a um modelo idealizado de mulher que deveria ser delicada, sensível, reservada, submissa - a "bela, recatada e do lar" - uma visão conservadora, para não dizer machista, que pré-estabelece valores e expectativas ao que significa ser mulher. 
Ao longo dos meus trinta e poucos anos, pelo menos uns 2/3 deles, achei que ser feminina era seguir um roteiro pronto - falar baixo, sorrir delicadamente, não exagerar. Deveria polir minha personalidade e evitar vulgaridades, como se isso fosse suficiente para me livrar das mazelas do mundo. Grande engano! Assim, percebi que minha feminilidade não cabia nos moldes, eu não cabia e isso foi libertador. Desde pequenas somos ensinadas a "agir como moças", mas raramente nos perguntam o que, de fato, isso significa. Afinal, o que é ser feminina - um comportamento, uma essência ou uma escolha?
Em cada época, a sociedade construiu uma imagem do que deveria ser uma mulher feminina, contudo, em pleno século XXI, essas fronteiras se tornaram porosas. Entre o empoderamento e a tradição, a feminilidade deixa de ser uma essência fixa e passa a ser uma construção. Ela passa a ser reinventada por cada mulher, de formas múltiplas e legítimas. Ser feminina pode significar ser forte, ser sensível, ser ousada, ser simples, ser quem se é.
Ser feminina é ser genuína consigo, autêntica, plural. Ser feminina é ser quem você é, independe da roupa que veste, do tom da sua voz ou da forma como ri. Ser feminina é ser mulher. E, assim como as mulheres mudaram com o tempo, conquistando direitos e espaços em uma sociedade que ainda carrega marcas do machismo e do patriarcado, a própria ideia de feminilidade também se transformou. 
Hoje, ser feminina é mais do que corresponder a um padrão, é afirmar a liberdade de existir do seu próprio jeito. Essa nova feminilidade não cabe em estereótipos. Independe de saltos, maquiagem ou delicadeza - embora possa conter tudo isso, se essa for a escolha da mulher. É poder ser forte, sem deixar de ser sensível, ocupar espaços antes negados e falar o que pensa sem temer ser chamada de "vulgar".
A feminilidade contemporânea é feita de liberdade. Liberdade para decidir o que vestir, o que sentir, o que calar e o que gritar. É reconhecer que não existe uma única forma de ser mulher. Cada mulher carrega sua própria versão do que é ser feminina, todas autênticas e reais. Porque a verdadeira feminilidade não se aprende, se descobre. E quando uma mulher descobre a sua, o mundo inteiro precisa aprender a lidar com o brilho que ela emana.